A história da Marta Esteves Rodrigues

Desde que me conheço que sabia que queria ser mãe de dois filhos mas nunca me questionei se queria amamentar ou não…

As recordações mais remotas que tenho sobre amamentação remontam ao nascimento do meu irmão, com 6 anos de diferença de mim. Lembro-me de ver a minha mãe a sofrer muito a tentar amamentar o meu irmão, com dores, a fazer massagens com toalhas quentes sobre as mamas… Lembro-me também de ter uma bomba manual por perto, mas que não a ajudava, só lhe fazia mais dores.

Talvez devido a estas experiências pouco positivas, tendo havido em ambos os casos um desmame precoce, sempre me foi passada a passada a ideia de que era um momento doloroso e que não iria conseguir amamentar porque os meus mamilos eram praticamente planos.

Quando fiquei grávida, ainda antes das 12 semanas todos esses receios voltavam a vir ao de cima, tendo havido sugestões de falar com o meu médico para saber se haveria alguma forma de preparar os meus mamilos para a altura em que iria amamentar. Ainda nem estava a meio da gravidez e já estava a ser condicionada por experiências negativas no que dizia respeito a dar de mamar!

A gravidez foi decorrendo, dentro do possível, de forma muito tranquila.

Por volta das 28 semanas decidimos (eu e o pai) fazer um Curso de Preparação para o Parto e foi nessa altura que fiquei ciente de que existiam imensos mitos relativos à amamentação. Aí aprendi que os bebés precisam de contacto e, acima de tudo, que o meu leite seria sempre suficiente, desde que estivesse disponível para amamentar o meu bebé sempre que ele quisesse. Interiorizei esse lema dentro de mim e estava determinada a levar a cabo essa missão – amamentar o meu filho até quando ele quisesse!

O D. nasceu às 40 semanas e 5 dias, de parto normal. O parto foi um momento único e todos os meus pedidos foram respeitados e atendidos, nomeadamente o corte tardio do cordão umbilical, não fazer episiotomia, poder puxá-lo para cima de mim e fazer contacto pele-a-pele, bem como amamentá-lo na primeira hora de vida.

Tudo parecia estar a correr bem, não sentia grandes dores, só algum desconforto, as enfermeiras diziam que o D já tinha nascido a saber mamar e nunca me falaram em lhe dar leite artificial. Tivemos alta ainda antes das 48 horas após nascimento e viemos para casa…

Foi na noite de chegada a casa que começaram as dificuldades… Tive uma subida de leite brusca, o peito ficou muito ingurgitado e apercebi-me de ter gretas e fissuras, uma das mamas até deitava sangue. Chorei muito de dor e de ver o meu bebé a chorar. Valeu-me a ajuda da minha mãe, que me foi dando indicações para aliviar o ingurgitamento e o apoio do meu marido, sempre ao meu lado. Nos primeiros dias tive dores horríveis e cheguei a amamentar só de uma mama, o que não ajudou a resolver a situação do ingurgitamento. Ao mesmo tempo o meu marido buscava incessantemente informação sobre o que estávamos a passar. A realidade é que estava assustada, tinha medo de dar de mamar ao meu filho da mama que sangrava, usei mamilos de silicone porque tinha imensas dores quando ele pegava na mama. Numa dessas noites o meu filho chorava e chorava, eu e o pai igualmente, foi a pior noite das nossas vidas! Só pensava que o meu bebé tinha fome e que não estava em condições de o amamentar de acordo com as suas necessidades. Ligámos à Saúde 24 e foi-nos marcada uma consulta para o dia seguinte na nossa USF. E assim foi, nesse dia fui assistida pela minha médica de família e por uma enfermeira, 5 estrelas, que examinou a minha mama que estava magoada e ingurgitada, viu o D a mamar e deu-me alguns conselhos para sarar a ferida. Passados um ou dois dias o ingurgitamento passou mas continuava a ter cuidados para sarar a fissura. Passados uns dias fomos fazer uma pesagem à USF e a enfermeira pediu-me para o colocar a mamar na mama com a fissura e quando verifiquei que o meu peito não sangrava foi o maior alívio do mundo!

Para mim, este foi o ponto de viragem na amamentação. A partir desse momento a amamentação corria bem, o D. mamava muito e aumentava bem de peso. Entretanto fui sempre procurando ler mais, ter mais informação, aperceber-me das experiências que as outras mães tinham neste campo, e apercebi-me que tudo aquilo porque estava a passar era mais comum do que o que tinha imaginado.

Aos 3 meses, no entanto, começaram algumas dúvidas… O D tinha um comportamento estranho, queria mamar muito mais vezes, ficava muito inquieto, chorava na mama, pegava e largava a mama (um misto de querer e não querer!), o que me deixou algo confusa. Nesta fase o D chorava muito no final do dia, parecia que tinha fome e que não estava satisfeito. Na teoria eu sabia que tinha leite suficiente mas as outras pessoas começaram a colocar isso em causa, fazendo-me duvidar da minha capacidade para amamentar. Mais uma vez fui procurar ajuda, desta vez, ao Centro onde tinha tirado o curso de preparação para o parto, onde voltaram a dar-me confiança e me explicaram a fase pela qual o meu bebé estava a passar, que toda aquela agitação era normal e que iria passar. Ainda assim cheguei a dar-lhe leite artificial duas ou três vezes, em alturas de maior desespero.

Passada uma semana o D começou a acalmar e a minha confiança e tranquilidade no que estava a fazer voltaram. Continuava a aumentar bem de peso e estávamos todos felizes, incluindo o pediatra. E desde esta altura que nunca mais duvidei da minha capacidade para amamentar.

O D desmamou naturalmente, foi perdendo o interesse progressivamente pela mama. Devo confessar que me custou mais a mim do que a ele… Saudades desse tempo…

Penso que foi por essa altura que me propus a tirar o curso de Conselheira em Aleitamento Materno, queria ajudar as mães a confiar mais em si e no seu bebé, na sua capacidade para nutrirem, porque são todos diferentes e, como tal, não existem fórmulas nem receitas mágicas! Porque senti que neste processo o apoio inicial, imediato e presencial teria sido extremamente importante e que poderia ter feito diferença

Porque a amamentação é uma aventura que nem sempre é fácil mas é muito muito recompensadora!

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2 thoughts on “A história da Marta Esteves Rodrigues

  1. Débora Babo says:

    Parabéns pela sua persistência!!
    Obrigada pelo testemunho, com certeza irá ajudar muitas outras mães, a mim a Marta já me ajudou imenso.
    Beijinho com carinho

  2. Amamenta Lisboa says:

    Todas nós conseguimos superar as nossas dificuldades, desde que estejamos determinadas e que tenhamos o devido apoio.

    Ainda bem que consegui ajudar de alguma forma Débora.

    Obrigada e um beijinho.

    Marta Rodrigues

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